terça-feira, 1 de junho de 2021

apenas vontade, sem técnica #001

 

Matrix Hoje transmite sua primeira nota.

É preciso ler a Matrix. Ou seja, entender o que está acontecendo na poesia.

Esse assunto é tão bom que pode ser tão chato. Então vou tentar ter cuidado. A caminhada, espero, será longa.

É o mesmo cuidado que preciso ter para falar de Brasil. É preciso ler o Brasil. Ou seja, entender o que está acontecendo na poesia.

Pindorama vive. E como sofre.

Estou pesquisando sobre isso, sobre o acontecimento poético. Um acontecimento no Brasil. Aqui vou tentar articular algumas ideias. Coisas que ando pensando. Coisas que ando lendo.

Canão ou Boqueirão. É preciso ler a leitura. Ler outra vez. Pensar com calma.

E dar umas piradas, portanto.

 

* * *

 

E o que é que tem pra ver? Ultimamente estou dando voltas com o Janela destravada, um livrinho massa à beça do Carlos Meijueiro. Ler de novo esse texto foi uma espécie de experiência do reencontro.

Não apenas porque o texto do Carlos nesse livro é um acontecimento da escrita que fala. Um texto que se ouve. Talvez tenha mais aí.

Esse livro carrega um espírito da agitação do Carlinhos. Os espíritos do Norte Comum e do Hotel da Loucura. A gente sente de novo como a coisa acontece.

Não sei se é saudade de um Rio que não existe mais. E se for saudade, taí uma boa coisa para comentar. É essa escrita que guarda ela. Sem pena nem dó. Mas o texto não é datado. Também dá pra sentir que foi ontem. Que está acontecendo agora.

Escrever desse jeito, janela destravada. Carlos me faz acreditar numa poesia que é apenas vontade. Não quer ser técnica. Não quer inventar a roda. Não precisa da roda.

A gente tá cansado de rodas. Pelo menos, eu tô.

Lembro de como aqueles textos apareceram no Facebook. Dava para ver que era dedo rolando solto. Escrever no celular é diferente. Você precisa absorver a tela no discurso. Os dedos desenham de outra maneira. Fazem as letras ficarem daquele jeito. Tudo fica rápido. A estranheza é que não há perda de lirismo. A cena do yakissoba da Lapa invadindo a kombi pirata do 410 não me deixa mentir. O óleo escuro do shoyo no neon da luz interna.


* * *

 

A gente precisa inventar novas maneiras de quebrar a quarta parede da poesia. Dois lances recentes me chamaram a atenção para esse tipo de encenação da leitura. Uma coisa que quando acontece, e é bom, funciona super. Deixa tudo mais legal.

Um desses lances é a participação especialíssima de Gretchen e Rita Cadillac no zap da Bliss X. A revista ficou um barato, e os comentários de nossas ídolas só contribuíram para a coisa rolar da melhor maneira possível.

Explico para quem não tem a revista:

Dado momento do passar das páginas, Gretchen e Rita surgem como uma seção especial. Uma conversa de whatsapp entre as duas celebridades aparece impressa, tipo um print, um vazamento da Lava Jato. Elas então comentam os poemas que antecedem cada seção. Um juízo de leitura. É muito divertido. Isso sem falar dos áudios que nos matam de curiosidade; estes, uma vez impressos, não podem ser ouvidos.

É impossível não querer participar. Concordar ou discordar. A revista dá um jeito de nos dar imediatamente uma maneira de conversar sobre o que acabamos de ler. O sentido da coisa é tão bem amarrado que a resposta cai da boca, mesmo que você não queira dizê-la.

Encontrar, conversar.

E aí voltamos ao debate do uso da escrita. Da escrita que não precisa inventar a roda. Da poesia que é só vontade. Não é técnica.

Outro lance quero parear, com um pedido especial. Porque antes de falar dos poemas do livro novo da Carla Diacov : pescoço x sobreviventes vou falar do posfácio. O pedido é claro um pedido de desculpa, porque isso não se faz. Os poemas da Carla são primorosos.

Mas o posfácio:

cortado em mais de três pedaços / conte os pedaços / comece por baixo – conversa entre érica zíngano, francine jallegas e tom nóbrega

é uma das coisas mais interessantes que você vai ler em 2021. Dê um jeito de ler.

Se estamos falando da quebra da quarta parede. Aqui está.

O posfácio é uma transcrição de uma conversa sobre os poemas da Carla. A coisa vai ficando tão bem fabulada e interessante que (acho que nunca vi isso acontecer) o livro permanece durante o posfácio em alta voltagem; a leitura não descende e se acalma. Ademais, se agita. Os comentários sobre os poemas dão vontade de voltar neles.

Se ler os poemas já é uma porrada. Ler o posfácio é o mertiolate.

Um trecho, para você não sair daqui sem isso:

– é, tem um sincretismo aí, que não é só o sincretismo das religiões, é o sincretismo das referências, em que a cultura pop vem desconstruir a solenidade dos ritos. tem um momento em que aparece a lory lamby, da hilda hilst, tem aquele verso, “a cortar o bife de forma abramovic”, tem uma série de citações abruptas que criam conexões inusitadas, que geram uma série de leituras: será que “cortar um bife à maneira abramovic” é cortar o bife e se cortar ao mesmo tempo? seja como for, a abramovic hoje em dia é uma figura tão pop quanto a carey mulligan, uma atriz que a carla também cita, que eu tive que buscar no google, porque não fazia ideia de quem fosse. depois, precisei voltar ao google pra descobrir que aquela frase em inglês, “as they say on my own Cape Cod”, era do john kennedy. abramovic, penny lane, bonnie (que me fez pensar em bonnie e clyde), butler (talvez a judith butler), nelson rodrigues, o presidente kennedy: a carla coloca tudo quanto é tipo de pescoço dentro do livro, e, como num mixer, bate e mistura tudo. 

 

* * *

 

Acho que tem muita coisa massa rolando por aí. Só vontade, sem técnica. Desconstruir a solenidade dos ritos. Escrever sem a roda.

Não é legal pensar nessas coisas? Eu acho.

Outro lance que entra aqui como um extra de luxo: Sábado, do Marcio Junqueira.

Nesse livro lindo, com uma capacidade rara de imersão, vemos um texto que desfolha. Mostras suas formas, seu caminho. Não sabemos muito bem qual é o texto de verdade, justamente porque verdade não há. Tudo está arruinado. O texto vai e volta porque mostra seus rastros. Dá para decompô-lo até chegar à primeira demão, porque parece um texto que pode ser descascado. Pelo menos assim ele convida a imaginá-lo. E é tão gostoso de ler. Tão brisado.

Brisa boa. Sábado é muito bem feito. E antes, foi muito bem escrito. Bem pensado. Bem lido.

Ler bem antes de fazer. Fazer bem lido. Serão lições?

Ali, a quarta parede se volta para as próprias anotações de Marcio que construíram o texto. Seus rascunhos e rabiscos. Então surge o texto tipográfico. O texto pronto. Os dois registros se confundem. Rascunho e poema. Todos servem. Todos são plenos. 

Parece que escrever é pensar em escrever. É sentir a escrita. 

Então, fazer.

E há uma naturalidade em ser assim. A confusão é visível. Nos conquista.

 

*

 

E é aí que a janela destravada reafirma sua lei só vontade. Abrir a casa, ou seja, abrir a janela do busão. A gente já mora no ônibus. Não precisamos ficar presos dentro dele. Podemos olhar pra fora. Imaginar a cena de fora. Enquanto sacoleja.

No Rio, andar de ônibus é quase a experiência do curso de gravidade da aeronáutica espacial.

São vários pontos de intensidade da força g. Dá até para sentir a gente voando para fora da janela.

Aproveitemos esse impulso.

 

*

 

Antes de terminar esta primeira nota, vale dizer: Matrix Hoje.

Amanhã quem vai lá saber.

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